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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

«Tudo o que eu tenho trago comigo» de Herta Müller, Dom Quixote


Tudo o que eu tenho trago comigo. 

Ou: Tudo o que é meu trago em mim.



Talvez estas sejam as frases mais passíveis de resumir este livro. Um livro muito pouco passivo ou sequer histórico ou até biográfico, este livro, destacado pelo Nobel da Literatura 2009, tal como está escrito, transcende a própria história, transcende o homem desprovido de bens, transcende a nossa capacidade de ler sobre tanta miséria, tanta fome, tanta morte, tanta pobreza.


Um livro que não se faz notar pelo peso que tem, mas antes pelo peso de cada palavra, uma a seguir à outra, detalhadamente escolhidas, calculadas, estrategicamente colocadas para nos fazer viajar por tamanha brutalidade, a doença da fome, que se alastra pelo corpo ao mesmo tempo que consome a mente, rendilha as ideias e os sentimentos.

Este livro arrepiou-me tantas vezes que algumas mo fizeram fechar, a dimensão do sofrimento humano é tal, que chega a ser difícil suportar... quem sabe não foi isso que em muitas noites me tirou o sono. Fiquei com muita curiosidade por outras obras da autora, se bem que houve partes em que desejei já ter terminado o livro, a carga emocional é demasiado grande.



"A Irma Pfeifer jazia no meio, de cara voltada para baixo. A argamassa fazia bolhas (...)A cabeça afundou-se e o barrete flutuou lentamente até ao bordo, como pomba emproada. Com as mordidelas dos piolhos em crosta, a nuca rapada (...) a Irma Pfeifer desceu à terra provavelmente vestida e os mortos não precisam de roupa, quando há vivos a morrer de frio.
Achar pode achar-se muita coisa. Saber é que não."


A frieza das palavras, a rapidez com que as coisas acontecem, os pensamentos duros, nus, crus, cozinhados apenas na dor causada pela fome, são para mim atordoantes, de chegar a dar medo.

"O anjo da fome deita um olhar à sua balança e diz: "Ainda não estás suficientemente leve..."
E com rapidez, de lábio empinado, comi então todas as cascas de batata enregeladas.
E chega a noite. (...) E todos sobem para a fome...
(...)
Quando a fome aperta mais, falamos da infância e de comida. (...) Umas vezes é o pato recheado à evangélica, outras, o recheado à católica." 




Volker Weidermann refere que esta é uma obra que se alimenta do horror, eu acrescentaria que se alimenta antes do poder de gerar horror, numa tal dimensão que nos deixa alerta para o respeito e a humildade com que devemos olhar à história e retirar dela todas as lições que o futuro nos pede. Sei que pode parecer filosófico, mas a guerra é o horror daquilo que uns são capazes de fazer contra os outros, por necessidade, por defesa, por obrigação. A verdade é que a guerra é um complexo de horrores, de mortes, de atrocidades que marca toda uma história mundial.

Já quase no final do livro, no capítulo "a gente vive, vive só uma vez", as primeiras palavras são curtas, concisas e arrepiantes - "a alimentação do corpo permanece até hoje um mistério para mim."


"A minha radical prática de abandono. Preciso muito de proximidade, mas sou incapaz de me entregar. (...) Desde o anjo da fome, não permito que ninguém me tenha."


TAMBÉM LÁ ESTIVE (...) EU FIQUEI LÁ (...) DE LÁ NÃO CONSIGO SAIR



Apaixonei-me... Rébecca Dautremer "O livro que voa" de Pierre Laury

A combinação é perfeita... a escrita simples e mágica de Pierre Laury e a ilustração sonhadora e apaixonante de Rébecca Dautremer em o "Livro que voa", da Editora Educação Nacional, ganho com muito prazer no passatempo do D'Magia ;)

  
Pautado pela música, pela ventania, pela vontade de ser livre, este livro só queria voar e dar asas às suas letras... à sua própria imaginação.
Esta é a história de um livro que se faz amigo de pequenos pássaros, é a história encarnada de Ícaro e das suas asas quase tão verdadeiras como as dos pássaros, mostrando que a vontade de voar reside em nós, na nossa força...
Voar é levar as letras a outras paragens, fazer com elas novas palavras, novas histórias, é criar e deixar que cada um de nós possa imaginar... Tal como estas divagações que hoje aqui faço, fugindo assim à história deste livro sonhador.

Desejo-vos muitos voos por essa vida fora.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011