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sexta-feira, 1 de abril de 2016

«A noite não é eterna» de Ana Cristina Silva - Opinião



Na Roménia de Ceausescu, sob a alçada comunista, desenrola-se este «A noite não é eterna» de Ana Cristina Silva, trazendo até ao leitor uma aura de sofrimento, opressão, ditadura, frieza, mas também redenção, amor e esperança.

"(...) Sentiu-o antes de o compreender totalmente. Era sem dúvida, um desejo inútil, fazia o mesmo percurso do pó que corre à nossa frente sem nunca se materializar."

Nadia é sem dúvida como o pó, parece sempre que nunca irá materializar os seus desejos, mas a vida e as pessoas com quem se cruza irão permitir-lhe um outro percurso. Não menos sofredor ou previsível, mas diferente daquele que chegou a desejar.
Nadia é mulher de Paul, um entusiasta do partido que tudo faz para ascender até chegar ao ponto de entregar Drago, o filho de ambos com três anos, para alimentar as ideias do ditador de reforçar os orfanatos que serão, num futuro breve, as novas forças do partido e da pátria.

"Quando uma criança desaparece, gera-se um enorme silêncio em redor da sua ausência."

Revoltada, mas remetida ao silêncio que o marido e a política exigiam, a subtil Nadia terá de conseguir ver novamente o filho, mesmo que isso a inundasse de pensamentos loucos e vontades inimagináveis, levando-a a uma fragmentação total.
A narrativa da autora demonstra bem o sofrimento e o sufoco, porém, a forma como a mesma encontra para conferir acção ao desejo de vingança de Nadia parece-me, em parte, suspeita nos tempos que se viviam na Roménia, se bem que o aparecimento do inspector Pacepa vem corroborar a sua actividade nos orfanatos. Que por mais de uma vez a autora impõe ao autor de forma bastante sensorial.

"Eram casarões escuros com nuvens de crianças magras de rostos tristes e macilentos. A fome estava sempre presente nas suas caras e, pelo que Nadia percebeu, os castigos eram arbitrários e sem critérios."

Gosto da forma como com uma frase curta, no máximos duas, a autora consegue dar-nos cenários bastante vívidos ou descrições simples que demonstram a dor e o quanto perdida se sente Nadia ou como a frieza e o tom autoritário do marido cobrem a casa com uma aura de medo.

"A justiça era assim mesmo: uma enorme máquina de triturar. E ninguém pensava em protestar porque se vivia fechado no medo e no silêncio."

Apesar do medo, a resistência e a redenção chegam na forma de um homem muito distante do padrão que pautava a vida de Nadia. Com Vasile abre-se um sentimento incontrolável de desejo pelo futuro, o que desperta nela uma luta interna demonstrando o peso de uma dor tão íntima.

"A dor surda estava lá, tanto assim que ela chorava nos seus braços, mas essa condições parecia transformar-se noutra coisa, numa esperança qualquer.
A calma da noite era quase perfeita com a neve a cair(...)"

Foi uma leitura interessante, mas achei o rumo previsível. Se o fim fosse mais negro...


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