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sábado, 9 de abril de 2016

«O Ventre do Atlântico» de Fatou Diome :: Opinião


«Atlântico, leva-me contigo, o teu ventre amargo ser-me-á mais suave do que o meu leito. A lenda diz que dás asilo aos que to pedem."

É curiosa a forma como este romance, de inspiração autobiográfica, começa; levando-nos aos Europeu de Futebol de 2000, dando-nos a conhecer Salie e Maliché, ela imigrada e ele com desejos disso. O Europeu, que para nós, foi o fatídico jogo em que Zidane goleia Portugal, já depois do prolongamento e com um penalty, eliminando-nos. Curioso porquê? O futebol é o que une a narradora e o irmão, em Niodior, Senegal, enquanto ela está em Estrasburgo, França, entre chamadas que são autênticos relatos dos jogos, fala-se também, nas entrelinhas, de esperanças sonhos e decisões, que era muito do mesmo que me acompanhava aquando do tal jogo que acabei a reviver com este livro. 
É também de memórias e de gerir expectativas que este «O Ventre do Atlântico» está cheio e traz até ao leitor as esperanças, os riscos e todo o desafio que é a imigração.

"Avanço, passos que carregam o peso dos sonhos deles com a cabeça repleta dos meus. (...) Este fogo tem de se alimentar. A escrita é a minha panela de feiticeira; à noite ponho aa aquecer a lume brando sonhos demasiado duros de cozer.
(...) O mundo oferece-se, mas não abraça ninguém e não se deixa abraçar."

Diome tem uma missão, a sua escrita está para o leitor como a manteiga de karité está para a sua pela; para se entranhar e provocar uma total absorção das tradições, das inquietudes e das provações que a imigração desperta. No entanto, a mesma alerta para o grito e o calvário, que não se sente só em África; a Europa também já grita, apesar de ser um grito diferente, nomeadamente volvidos mais de dez após a escrita deste livro.

"Cego pelas suas próprias chagas, o Terceiro Mundo não vê as da Europa: ensurdecido pelo seu grito, não ouve o da Europa."

"A nostalgia é o meu fado; tenho de domesticá-la, guardar a música das minhas raízes nas minhas gavetas de relíquias, tal como as fotografias do meus, para sempre deitados na areia quente de Niodior."

Mesmo assim, Diome não resiste a embalar-se nos cânticos da diva Serere e despertar-nos a curiosidade para a irmos ouvir, inebriando-nos com as histórias que nos conta e que revelam a forma de vida e a comunidade, as relações entre famílias e os clãs nas terras mais longínquas e dedicadas à pesca, afastadas das turísticas praias de M'Bour ou da famosa Dakar. 


É revelando a dedicação à família e pensando muitas vezes nela que a narradora revela frases que lhe foram grandes ensinamentos e explicam também ao leitor, a relação irreversível que o imigrante tem para com a sua família. Justificando por vezes um certo rancor, arrependimento e até cólera perante as prestações a que de sente obrigado.

"O sangue esquece-se muitas vezes do seu dever, mas nunca do seu direito. (...) Tinha de «triunfar», a fim de assumir a função atribuída a qualquer filho da nossa terra: servir de segurança social para os seus."

São inúmeros os temas abordado por Fatou Diome, as malhas da imigração; o calvário da vida dedicada à pesca e a pobreza; o sonho "France, bone chance", esquecendo as dificuldades; a deportação, a exploração, a humilhação; a medonha sina das mulheres submissas aos homens e a constante poligamia; as gravidezes precoces; o turismo de prostituição movido pelas teias do capitalismo; a religião, com as suas madrassas e os falsos devotos muçulmanos e claro, as (já falsas) esperanças do futebol e ainda a eterna desigualdade entre homens e mulheres. 
Ainda assim, Diome dá um lado bastante maternal e carinhoso à forma como as mulheres se relacionam com os nascimentos e até umas com as outras, mas sem esquecer a Sharia, o peso da mão do homem e alguns episódios negros, fruto da forçosa tradição.

"É bem sabido que o estômago do uma mãe fica na barriga do seu filho."

Poderia continuar, já que a escrita é muito rica em detalhes, em estórias, em momentos que nos levam a divagar e à introspecção, mas talvez possamos dizer que tudo se resume ao slogan que procuram: Liberdade, Igualdade, Fraternidade, seja na França ou seja no acolhimento, no retorno a África. Afinal, Diome, dá-nos a ideia de que lá, aonde eles pertencem, de coração, de herança, haverá sempre um farol, uma luz guia que os encaminhará de volta. 

"Ela é o farol plantado no ventre do Atlântico." 

Só posso pedir que se deixem enlaçar neste relato quente e palpitante e que conheçam Salie e o irmão Malické, com todas as histórias e todos os confrontos que os envolvem. 

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«O Ventre do Atlântico» é uma edição BIZÂNCIO.
Vejam mais aqui

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Deixo também dois link que considero interessantes para uma leitura paralela sobre a temática.



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