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quinta-feira, 21 de julho de 2016

«O Livro dos Baltimore» de Joël Dicker :: Opinião


"Naquele ano pareceu-me que a qualidade da refeição do Dia de Acção de Graças era superior (...) O tio Saul estava rejuvenescido. A tia Anita tornara-se ainda mais bela. (...) O meu tio, a minha tia, os meus primos: julgava-os em perpétua ascensão, mas estavam em plena queda. Não o compreendi senão anos mais tarde. (...) Como podia eu ter imaginado o que lhes iria acontecer."

São exactamente esses anos mais tarde, mas também os de juventude e os de infância que encontramos em «O Livro dos Baltimore». A história da parte mais admirável da família Goldman antes, durante e depois de o Drama se ter imposto naquelas vidas.

Dicker volta a conseguir escrever um page turner capaz de agarrar o leitor, capítulo atrás de capítulo, dando pulos cronológicos que não baralham o leitor, mas antes alimentam nele uma enorme curiosidade de conhecer mais daqueles três primos, quase como se entrássemos num livro de aventuras. 
Dicker repetiu a proeza, reafirmando o que deixou escrito nas páginas do "A Verdade Sobre o Caso de Harry Quebert". 

"Um bom livro, Marcus, é um livro que lamentamos ter acabado de ler"

Sabendo que este livro vem na sequência do de Nola Kellergan, somos tentados a recordar toda a intriga pensando nós que o Drama a que Marcus se refere é esse, mas não. O nosso engano dura menos que cem páginas. E com isto não estou a dar qualquer spoiler. Percebemos rapidamente que o autor voltou a criar um novo enredo de mestre, colocando o foco no seio da família. Por isso, oscilamos entre o deleite com que lemos as aventuras dos primos, o peculiar Hillel, o duro Woody e o romântico Markie; e a desventura que os apanhará anos mais tarde, alterando a vida de todas estas ramificações da família Goldman. 

É muito interessante a forma como este livro emparelha com o anterior, sendo, cronologicamente, anterior. Parece complexo mas não é e não precisamos de estabelecer ligações, pois a força com que este decorre absorve-nos por completo e ficamos novamente presos à busca pela verdade que esconde a história desta família. Dicker volta a traçar um enredo minucioso e consegue, novamente, fazer-nos ficar ligados às personagens. Fiquei fã de Hillel.

No entanto, acho que algumas das divagações ou diálogos em que o autor coloca Mark, nomeadamente sobre o futuro, talvez sejam um pouco mais negros e descrentes e em certa parte mais realistas para os tempos actuais. Nisso, senti um afastamento face ao anterior.

"- Oh, peço-lhe: pare com as suas cantigas de revolucionário quem que ninguém acredita. O livro é o passado, meu pobre Marcus.
(...)
Os filhos dos seus filhos vão olhar para os livros com a mesma curiosidade com que nós olhamos para os hieróglifos dos faraós. Dir-lhe-ão: «Avô, para que servem os livros?» e responder-lhes-á: «Para sonhar. Pu para cortar árvores, já não sei.» 
(...) O futuro já não está nos livros, Goldman."

Alguma desta inocência militante de Mark podemos também encontrar na aproximação romântica ao seu primeiro amor, se por um lado as cenas com o cachorro se tornam deliciosas, já os diálogos entre os dois têm um pouco de mel a mais, mas é o único defeito que tenho a apontar à escrita do autor. Nesse aspecto de amor pouco funcional, se é que esta é a palavra; o toque de Lolita no primeiro, funcionou melhor.

Se antes a pergunta que sempre atormentou o leitor é: «Quem matou Nola Kellergen?», agora preocupamo-nos com: «O que, de facto, aconteceu com os Goldman de Baltimore?» 

Sem dúvida, uma leitura para este Verão!

*
Um livro ALFAGUARA | Penguin Random Grupo Editorial

1 comentário :

Maria das Palavras disse...

Gostei muito, mas não conseguiu superar o Harry Quebert (a meu ver).
E...não gostei nada do Hilel. Mas uma das partes do livro que mais me prendeu e emocionou foram os episódios de bullying na escola com ele e a maneira como ele se defendia atacanado, em vez de se tornar vítima, mas tornado-se numa cada vez mais (antes de conhecer o "outro primo Goldman").