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terça-feira, 14 de março de 2017

«A mulher que prendeu a chuva» de Teolinda Gersão :: Opinião



Originalmente publicado em 2007, «A mulher que prendeu a chuva» reúne quatorze contos de Teolinda Gersão, arrecadando dois prémios: Prémio Máxima de Literatura e Prémio Fundação Inês de Castro. O mesmo livro entrou também no Plano Nacional de Leitura. 

A propósito da participação da autora no Clube de Leitura do Lumiar, decidi revisitar este livro na sua 6ª edição que é de 2016, ano em que o li e mais precisamente no Verão, talvez por isso, o primeiro conto a que me atirei foi precisamente o último, «O Verão das teorias» para o qual o sub-título: reunionite aguda acentaria como uma luva, já que aqueles dois tios impuseram as reuniões como uma dinâmica familiar que aquelas crianças jamais iriam esquecer. É um conto delicioso e cheio de episódios caricatos, repletos de inocência e de magia que só os Verões em família podem ter... numa certa idade. 

"E a tia Serafina, que arrumava o armário, sabíamos que tinha um namorado que lhe escrevia cartas e ia aparecer no final do Verão para a pedir em casamento.
Pedir a mão, ouvíamos dizer. Ela podia mandar-lhe a mão, dentro de uma carta. Uma mão pintada, ou recortada, num papel. Nós sabíamos desenhar uma mão assim."

Depois de ter começado pelo fim, voltei ao primeiro conto e fiquei conquistada pela preocupação daquela mulher que não sabia em que língua deveria comunicar com o marido morto. É uma ideia brilhante, aliás todo o conto nos submerge numa metáfora muito interessante. 

"Não sabia onde estava e recordava-me só vagamente do meu nome. Mas não me esquecera o teu. Nem o facto de que estavas morto."

Não continuei o livro pela sua ordem e fui ler o conto que dá título à colectânea, maravilhando-me com a estória dentro da estória que fez ainda mais sentido quando entrei de seguida no conto "Se por acaso ouvires esta mensagem" e fiquei a pensar na ligação entre ambos os contos pela frase: "

Há palavras que uma vez ouvidas, nos mudam para sempre. Devias saber isso, afinal não eras tu mesmo que o dizia? É isso que eu pretendo, falando: mudar-te. Se me ouvires não poderás continuar como és, alguma coisa em ti se transforma e te coloca em movimento. Mesmo que apenas dês, na minha direcção, o menor dos teus passos."

Este foi um dos contos favoritos, mas também aqueles que falam de cidades que conheço e outrora visitei, tendo a Teolinda a capacidade de me colocar lá de volta, a locais que se fechar os olhos, revejo e reencontro, como as cores do Outono nas tonalidade do Tiergarten. 

"A vertigem do tempo. Um lugar reflectia outros lugares, os rostos outros rostos. Caminhavam ao acaso, deixando-se levar pelo que acontecia, porque eram os choques casuais com a banalidade que de repente se revelavam portadores de sentido, como iluminações momentâneas."

E se não é isto a essência de tantas viagens, o que é?

*
Agora é tempo de me lançar a mais outros quatorze contos, desta vez reunidos no livro «Prantos, amores e outros desvarios», uma edição Porto Editora.

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