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segunda-feira, 3 de abril de 2017

«A Construção do vazio» de Patrícia Reis :: Opinião



"Não há palavras para a solidão a que cheguei. Secaram-me na angústia de me explicar. Talvez seja melhor começar pelo início. O início é sempre o momento da verdade, algo louco, imprevisto. Como um fado que se canta sem se saber a letra, na comoção de reconhecer algo sem, ao mesmo tempo, conseguir dizer o poema e a sua intenção inteira."

Eu diria antes que é difícil encontrar palavras para descrever a solidão e a dor que não secaram, como secou o amor, muito cedo oprimido na infância marcada pela violência e o abuso. O início deste livro é, ele sim, recheado de vazios e cheio de tudo o que não devia habitar uma infância. Sofia, é uma vítima, tanto às mãos da bela mãe, como do pai tirano. Ambos violentos, ambos a marcarem-lhe o corpo e a alma, transformando-lhe a personalidade, deixando-a ao abandono de quem cresce no silêncio de uma família faz de conta.

"A minha mãe era tão bonita.
Não se podia falar com ela. Tudo lhe fazia dores de cabeça e, na presença do meu pai, mirrava, um corpo a reforçar-se por desaparecer. Ficávamos como a minha coleção de brincar: uma família faz de conta. Era o nosso retrato, mas só o soube muito mais tarde."

"E o meu pai percebeu que a distância entre nós, (...) era uma distância imensa, era um labirinto fatal no deserto, uma viagem transatlântica. O ponteiro do relógio deixara de rodar de acordo com o seu ritmo, eu detinha o poder sobre a corda; atrasar, adiantar, suspender. Era o meu tempo."

Nesse seu tempo Sofia cresceu, mas o medo, o refúgio no silêncio, os segredos, o isolamento, eram repetitivos e também cresceram com ela. Numa fase, Sara e Rosa preencheram alguns espaços, mais tarde Luísa, amigas também do silêncio e donas dos seus próprios problemas familiares, mas a vida, no seu curso normal, afastou-as, ainda que a normalidade exigisse uma amizade.

"A minha avó perguntava pelas minhas amigas, parecia-lhe essencial que eu tivesse um grupo (..) tudo isso implicava cumprir com um programa de normalidade e a normalidade é desejável perante o desconhecido. O meu rosto denunciava um mal-estar que a minha avó não queria desvendar. Manter a leveza era o seu mote."

A distância familiar era imensa e evidente, parecia não ter fim, no entanto, três homens, a bem dizer quatro, alteraram-lhe a adolescência: Carlos, Eduardo, Lourenço e Jaime, atenuaram, mas não a fizeram esquecer que no escuro, no sofrimento não houve nunca uma mão que a resgatasse.

"O meu pai violentava-me, a minha mãe ignorava e batia-me. Não havia a quem pedir socorro. (...)
Um sobrevivente não ultrapassa, finge que vive. Pode até esconder a cicatriz. Mesmo quando o tempo pede tréguas, eu acelero e não faço nada do que me pedem, escondo o que me aconteceu e ataco e ataco de forma feroz, finjo que sou louca e irresponsável, torno-me um animal, o mesmo animal que berrou na casa de banho e que sangrou depois."

 A maldade, a indiferença e as decisões desastrosas definiram o caminho de Sofia, perpetuaram a sua dor e limitaram a sua vida. Existem fantasmas que são mesmo para uma vida toda.

"O tom da sua voz ainda me sobressaltava, o medo fazia-me perder a saliva, a garganta seca, seca, e as mãos tremiam ligeiras, sem sentido, com vontade de se apertarem para controlar o pavor do corpo. O cheiro dele. A pele dele. Toda a minha vida, bastou um segundo para regressar à prisão onde me colocou, aí onde me foi roubada qualquer hipótese de ser como as outras pessoas, aí onde a virtude perdeu toda a solidez e o corpo derramou o pior de tudo."


Um livro Dom Quixote | Leya

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