quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Guia de Tratamento | Paciente: Metade Negra


«Remédios Literários, Livros para salvar a sua vida - de A a Z»
de
Ella Berthoud & Susan Elderkin | Edições Quetzal 

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Paciente: respondo pelo nome de Metade Negra, tenho 35 anos e várias patologias.
Sintomas
- Diagnostico em mim crises diversas e variadas; teimosia agravada e solidão cristalizada;
- entre outras coisitas físicas mais simples, como dificuldade em fechar a boca ou síndrome de cão da pradaria...

Após uma leitura atenta, divertida e considerando conselhos e avisos das autoras, estou prepara para emitir a Guia de Tratamento e a posologia adequada perante as diversas crises diagnosticadas.

A forma como o diagnóstico se vai construindo a ele próprio, é brilhante, ou seja, este livro é a prova de que um mal nunca vem só e à medida que procuramos por uma maleita encontramos logo outra associada que facilmente reconhecemos como mais uma na nossa lista.

Por isso aqui fica o enumerado de maleitas e respectiva prescrição.

- Prisão de Ventre e Flatulência - para soltar notícias das suas entranhas, as autores prometem que «Shantaram» de Gregory David Roberts fará milagres, tais são as descrições. Aliás, a barrigada de riso que é a entrada neste livro sobre esse outro livro, é divinal e só por si já melhora os movimentos intestinais. No caso concreto da flatulência, estou muito satisfeita com a medicação, aliás, já a testei, é o livro «Uma conspiração de estúpidos», um livro fabuloso de John Kennedy Toole. 

Associado a estas quezílias do corpo com ele mesmo, o livro diagnostica também irritabilidade (confirmo!), gula (culpada!), rabugide e letargia... tudo sintomas várias vezes experimentados, logo para tratar a irritabilidade a proposta é: «O navio-farol de Blackwater» de Colm Tóibín; para superar a rabugide, que as autoras avisam ser contagiosa e eu não quero contagiar ninguém, que não quero ninguém igual a mim, a sugestão é: «A Ilha do Doutor Moreau» de H. G. Wells - que pela descrição deste livro de remédios me parece ir encaixar que nem uma luva. 

Para acabar com a Gula, essa inimiga eterna, as autores sugerem «A divida do prazer» de John Lanchester que tem uma sinopse bem suculenta. E ainda para o combate à letargia, um livro que promete alimentar o bichinho carapinteiro, que eu ás vezes também preciso controlar, por isso ficam ambas as sugestões: «O céu que nos protege» de Paul Bowles e "Ulisses" de Homero, respectivamente.

Associado ao desejo de andar de um lado pro outro, há duas patologias distintas, uma é o desejo de abandonar o barco e outra é o de viajar, para o qual, Ellen e Susan, alertam para o seguinte: não vá você tornar-se numa dessa pedras que não criam musgo. A ideia é maravilhosa, mas como por enquanto não me importa de ser um seixo rolante, iria bem até ao Japão e para tal viagem é recomendado tomar uma dose de Yasunari Kawabata com o seu «Terra de Neve». 
Daqui, fico ainda com a referência à série de John Updike com início em «Corre Coelho», na qual estive para pagar neste final de Verão, mas faltava precisamente este primeiro livro. Agora já tenho mais um motivo.

Para as noites de insónia, que não é bem assim que elas o referem, fica o curioso título, «A Casa do Sono» de Jonatham Coe, que eu tenho na estante há tanto tempo. A ver se lhe pego.

Tal como a insónia quem é que, de vez em quando, não se sente insatisfeito ou com saudades de algo!?
Para combater a Insatisfação: «Bairro de lata» de Steinbeck e para as Saudades um livro ternurento, misterioso e suave, «Seda» de Alessandro Baricco.

Típico de gaja são as dores associadas àquela altura chata e tenebrosa do mês, para esses dias algumas das recomendações eu já li, por isso escolho, pelo título «A Tenda Vermelha» de Anita Diamant, livro o qual não deverá ser fácil de encontrar, por isso, outra sugestão é o «Até ao fim do mundo» de Maria Sample, que eu, gentilmente, sugerir à rede de bibliotecas e eles adquiriram. 

Nessa altura do mês outra coisa que me afecta são as dores, umas mais gerais que outras e logo aqui eu já tomei deste remédio: «Acasalamento» de Norman Rush 
A outra sugestão é um livro que me persegue «A história de Edgar Sawtele» de David Wroblewski

Para quem como eu, pode, sabe-se lá, não arriscar o suficiente, o remédio é português e é do meu ano, 1982... tantas coincidências. A prescrição é «Balada da praia dos cães» de José Cardoso Pires.

O mais patológico talvez sejam dois:
- em busca da felicidade - o remédio é ler «Fahrenheit 451» de Ray Bradbury;
- não ter filhos (e continuar a não tê-los) as autoras recomendam: "She" de H. Rider Haggard que pela sinopse não me convence e pergunto-me se depois de "Temos de falar sobre Kevin" é preciso mais discussões!?

Para terminar a lista de medicamentos, faltam três:

- para tratar a patologia de DIY, "faça você mesmo", um livro e um pedido de atenção para não martelar dedos - «A ilha de Caribau» de David Vann

- para se iniciar à ficção científica - como se não lê-la fosse um mal maior, mas ok, pelas sugestões apresentadas eu até considerei: «1984» e «Nunca me deixes» no novo Nobel da Literatura

E a cereja no topo do bolo, um dos meus livros de sempre e recomendados para quem tem mais de 100, exacto, cem anos ;) o «DRACULA» pois claro. Não sei o que dirá de mim ter como favorito um dos livros recomendados para pessoas com mais de 100 anos. E atenção, na lista existem outros que eu já li, como o hilariante, «O centenário que fugiu pela janela e desapareceu". Li o livro e vi o filme, dose dupla, sou um fóssil. 


Se estes remédios não forem suficientes há uma lista de livros só porque a malta já passou dos 30, mas ainda não entrou nos 40, aqui ficam:

- «A inquilina de Wildfell Hall» de Anne Brontë
- «Middlesex» de Jeffrey Eugenides
- «O sol nasce sempre (hiesta)» de Ernest Hemingway
- «Anna Karénina» de Lev Tolstoi
- «Servidão Humana» de W. Somerset Maugham
- «2666» de Roberto Bolaño
- «A sorte de Jim» de Kingsley Amis
- «Orgulho e Preconceito» de Jane Austen
- «Mau tempo no canal» de Vitorino Nemésio (Já tentei e desisti, se calhar foi antes dos 30)


Ah, já me esquecia. Hoje o meu sobrinho disse-me, como já me disse muitas vezes: "Tia, és estranha."
Não quero deixar de ser estranha, mas aceito o remédio para a estranheza: «Oscar e Lucinda» de Peter Carey



Peguem neste livro e passem umas horas bem divertida a fazer a vossa prescrição




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